"escrevo para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida"

domingo, 1 de março de 2015


Gostaria muito de começar esta carta por «Querido pai» e acabar com «Obrigado por tudo. Amo-te», mas na realidade se o fizesse estaria a escrever estas palavras por outra pessoa, não por mim. Nunca mais te chamarei de pai porque é uma palavra que não se adequa a ti, não tenho nada a agradecer-te durante as minhas duas décadas de vida, e amor, esse só sinto por aqueles que valem a pena, por aqueles que dariam a vida por mim e que todos os dias me mostram que a vida é bela. Durante todos estes anos formulei muitas perguntas e sempre tentei procurar as respostas mais adequadas de forma a que tu não ficasses com aquela imagem de que tu és um ser humano desprezível. Mas sou sincera, quando era mais nova sentia raiva, revolta e muito ódio, não entendia os teus motivos para os teus actos (continuo a não entender), cheguei a culpar-me pensando que eu é que não prestava, que eu tinha defeito. Não vou fingir que sempre me senti feliz com a tua partida, houve momentos de pranto, de choro, sentia tanta dor no peito que sufocava, olhava em meu redor e via que todos os meus amigos tinham pai, sentia inveja e ciúmes porque sentia que era uma criança rejeitada. A verdade é que cheguei a desejar que tivesses morrido, preferia ter um bom pai morto, do que ser uma criança deixada para trás. O dia do pai durante anos afim fez-me imensa confusão, magoava quando chegava aquele dia, mas sempre me fazia de forte. Sabes, pensando melhor, tenho que reformular o inicio desta carta, tenho algo por agradecer-te: obrigada por teres escolhido a melhor mãe do mundo!!! Quando era uma criança nem o teu nome podia ouvir, parecia uma faca a atravessar-me o peito, aquele sentimento de culpa invadia-me e eu sofria tanto mas tanto. Agora passado duas décadas sou tão diferente, aprendi tanto com a vida, foi dura mas ensinou-me tudo o que sei e tornou-me tão melhor. Acredito que as coisas acontecem por um motivo, seja ele qual for, seja ele aceitável ou totalmente descabido. Aquelas perguntas não desapareceram por completo, mas não perco tempo com elas, e aquela culpa torturante simplesmente desapareceu, nenhuma criança é culpada pelos erros dos adultos, essa é a única certeza que tenho desta históriaHoje em dia, passado tantos anos, sei onde te posso encontrar mas não quero, para mim és só mais alguém neste mundo. Não te amo nem te odeio, não te desejo bem nem te desejo mal, não te quero ver nem te quero evitar. Se com esta carta quero mostrar-te que te perdoei… Não! O perdão só merece quem mostra arrependimento. E isso nunca o mostraste
Espero que nunca os remorsos te invadam, pois causam tanto sofrimento que destroem-nos. Talvez a vida monótona seja a maior lição que a vida te possa dar.

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