«Nunca me deixes». O pedido foi feito num sussurro e a minha mente
perdeu-se algures por entre as palavras. Cada letra ecoava contra as paredes da
minha memória e levou-me ao passado. A uma situação morta que palpitou no meu
peito por momentos. Eu era uma miúda de novo e estava abraçada a alguém que não
queria perder. O meu coração estava apertado e eu só conseguia pensar que a
minha vida nunca mais seria a mesma. «Não me deixes, por favor», disse por
entre o sofrimento. Senti-lhe a inexistência de sentimentos ao ouvir «Não posso
fazer nada, já sabes. O fim chegou». Eu sabia. Todo o meu corpo e alma sabiam.
Transpiravam esse sofrimento. «Pelo menos não desfaças já este abraço», quase
supliquei com as lágrimas presas algures dentro de mim. E não desfez. Deixou-se
ficar ali, por momentos, até que se afastou. E eu desisti. Peguei em tudo o que
era meu e desapareci. Não havia mais nada que me prendesse aquele local, aquela
pessoa. Não foi a última vez que a vi, mas foi a última vez que lhe pedi para
que não me deixasse. Cresci, contra a minha vontade e aprendi a não depender
de ninguém para a minha felicidade. Até hoje. «Nunca me deixes». O meu coração
parou por um momento. A voz que oiço é doce, trémula, apaixonada. Não é igual à
da pessoa que no passado me abandonou. É aí que acordo da visita ao passado e
me agarro ao presente.
«Acredita, nunca te vou deixar».

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