"escrevo para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida"

segunda-feira, 13 de maio de 2013







"Nós nascemos para sermos sozinhos e vivemos para sermos
congelados pelo inverno de nossa alma." Suicidamos a nossa alma
diariamente à espera de novas aventuras intensas e drásticas. À
esquerda da minha casa mora a solidão e a dois quarteirões daqui mora a
felicidade. "Seja feliz", ela declama a todos que passam à sua frente. Mas, como ser feliz se a estrada tem tantas curvas? Como ser feliz se constantemente estamos de luto sobre a própria morte? Que por
ironia do destino é minha vizinha, mora à frente da minha casa. "Vive
enquanto há tempo" ela sussurra aos que passam por ela. Amores mal
resolvidos, mal começados, mal terminados e mal aproveitados visitam-me
diariamente, eles preferem um chá amargo. Quando tu choras mais do que
sorris não é amor.
É doença, esta que frequentemente está na cadeira do
balanço na varanda da morte.
Diariamente vejo a lágrima, ela limpa as
ruas. Mas, sem querer inunda a minha casa, o meu quarto, a minha vida. A
paixão, pobre mendiga, sempre a vejo na porta da morte, eu acho-a meio
louca. Mas ela não é louca, ela é que me deixa literalmente louca. No meio
de todos os meus vizinhos, moras tu. Mas porque é que tu moras no final da
rua? Porque é que tu moras na esquina da rua da saudade? A tortura
geralmente traz-me notícias tuas e eu saio de casa com vontade de ir ter contigo. Mas a pena
leva-me de volta para casa, serve-me uma água com açúcar e sai, ela já é tão
da casa que nem pergunta onde é que ficam as coisas. No final da tarde
vejo o carteiro a passar, ele chama-se amor. Acho-o tão sem noção,
coitado. Ele manda o jornal para a minha porta e aí, vejo que a solidão se
mudou. Confesso que fiquei aliviada. A casa ao lado está vazia. Contudo, ao amanhecer noto que há muito barulho na casa vizinha. Quando chego à varanda, vejo que o meu novo vizinho não és tu, mesmo que eu tenha sonhado com isso. Mas, o meu novo vizinho é a ilusão. E logo de seguida volto à realidade e lembro-me que "nascemos para sermos sozinhos e
vivemos para sermos congelados pelo inverno de nossa alma."

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