No princípio, existem chamadas e mensagens. Os dias
cheios de conversas, elogios e sinais. Damos por nós a pensar como poderia
acontecer, onde poderia acontecer, porque poderia acontecer. Encontramo-nos
acidentalmente na mesma rua. Gozamos um com o outro o mais possível apenas para
garantir que temos tema de conversa. Trocamos olhares e não conseguimos evitar
sorrir, tudo nos passa pela cabeça mas não conseguimos agarrar sequer um
pensamento e temos um incontrolável desejo de qualquer coisa – não qualquer
coisa, aquela coisa. Acabamos por combinar estar juntos num lugar qualquer para
falar que afinal foi estrategicamente pensado, mas é do conhecimento geral que
depois de todas as chamadas e mensagens já não existem mais palavras. Não
tentamos impedir-nos de dizer que estamos apaixonados. Não tentamos separar os
nossos lábios, afastar os nossos olhos ou quebrar os nossos abraços. Não
tentamos mais nada, porque naquele momento sabemos o que queremos e queremos
que assim seja. E assim é. Depois, aqueles velhos dias dão lugar a horas de
promessas e segredos. Já sabemos como vai acontecer, onde vai acontecer e
porque vai acontecer. Encontramo-nos como queremos, onde queremos e porque
queremos, e continuamos a gozar um com o outro o mais possível para garantir
que temos tema de conversa. Já conhecemos quase todos os olhares, quase todas
as qualidades e defeitos, quase todos os cantos daquele corpo. Conhecemos e
gostamos. Já não pensamos se as nossas calças combinam com a camisola, porque
temos a segurança de que podemos engordar e envelhecer e seremos amados de
igual forma por aquela pessoa. Enviamos menos mensagens e recebemos menos
chamadas, e as conversas passam a simples. Discutimos a primeira vez e depois
discutimos mensalmente, semanalmente e diariamente, sabendo mesmo assim que não
faz mal, que ainda desejamos estar com aquela pessoa a todas as horas do nosso
dia, que ainda olhamos para ela e nos cresce um sorriso nos lábios, que ainda
sentimos um turbilhão no nosso estômago quando as coisas estão mal. Passamos de
um adoro-te para um amo-te, passamos do sofá para a cama, passamos do almoço
para o jantar e dos encontros para o trabalho e de vários beijos para apenas
um. Temos dúvidas e medos, sendo que eles já não cabem no nosso bolso. Choramos muito. E
deixamos de chorar para abrir os olhos e perceber que estaremos lá para nos
ajudar, nos respeitar e amar. E depois passam uns meses. Se tivermos sorte,
passa um ano ou dois. Vinte ou trinta. Cinquenta. Já não existem dias nem
horas, porque agora somos apenas feitos de minutos. Já não nos encontramos como
queremos nem onde queremos, porque já não queremos. Já não nos esforçamos por
gozar um com o outro. Já só vemos defeitos e estamos fartos de conhecer a mesma
pessoa repetidamente. Estamos gordos e velhos e a outra pessoa está ainda mais gorda
e velha. Já não nos lembramos da última vez que dissemos amo-te ou da última
vez que fizemos algo que o demonstrasse. Já nem sequer discutimos, porque houve
um dia qualquer em que percebemos que estávamos fartos de o fazer. Não estamos
juntos no sofá nem na cama, não interessa se estamos a almoçar ou a lanchar,
não nos encontramos sem que seja por obrigação e não nos lembramos como se
beija. Não temos dúvidas nem choramos, porque já não interessa. Estamos fartos.
Desculpamo-nos com a rotina, com "a culpa é minha, a outra pessoa é
fantástica", com a perda de sentimento ou com uma outra pessoa que despertou a
nossa atenção. Sentimos que acabou e mordemos os lábios. Dói, e queremos
afastar essa dor para o mais longe possível. Queremos apaixonar-nos novamente,
esquecer o desastre anterior. Não pensamos e não sentimos, parece fácil. Mas
quando estamos quase a esquecer, voltamos a encontrar-nos acidentalmente. Não
sabemos ao certo porquê, mas sentimos tudo de novo. De repente conhecemos
novamente as qualidades daquela pessoa, os cantos fantásticos do seu corpo, os
seus toques e murmúrios e segredos. De repente lembramo-nos das mensagens e
telefonemas, dos elogios, olhares e palavras. De repente lembramo-nos de como eramos felizes e de como não sabemos o que é que mudou, porque é que acabou.
Olhamos para trás e aí sim, queremos chorar, pontapear, esmurrar e gritar,
arrancar o nosso coração e colar as suas pequenas peças. Porque nesse momento
apercebemo-nos de que não fizemos um esforço. Que desistimos. Que caímos no
mesmo erro de todas as outras pessoas que criticávamos nas nossas conversas sem
fim. Esquecemos o que era realmente importante. Depois voltamos atrás, pedimos
uma nova hipótese, uma qualquer coisa que nos consiga salvar. Aí sabemos que
gozaremos sempre um com o outro. Que saberemos constantemente como vai
acontecer, onde vai acontecer, porque vai acontecer e isso parece-nos
perfeito. Aí estamos novamente preparados para todas as discussões, todos os
medos e dúvidas. O amo-te sai naturalmente. E então vamos olhar para nós e
pensar que nós podiamos ter sido a excepção à regra.

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